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O lado negro do comércio do camarão na Tailândia: Uma história real de escravidão

Procurava melhores condições de vida mas tudo o que encontrou foi escravidão. Ko Aye é apenas uma de milhares de vítimas de tráfico humano. Tinha 16 anos quando emigrou para a Tailândia em busca de uma vida melhor. Vivia com a família em Myanmar, onde trabalhava numa fazenda dedicada à produção de milho. O que ganhava dava apenas para comer naquele dia. Quando surgiu a oportunidade de emigrar para a Tailândia, não olhou para trás. A Tailândia é, para o sudeste asiático, a promessa de uma vida melhor, especialmente para aqueles que vivem na pobreza em países como Myanmar, Camboja e Laos. E também o foi para Ko Aye. No entanto, as suas esperanças caíram por terra assim pisou o solo tailandês.

Em Samut Sakhon, que fica a uma hora da capital tailandesa Banguecoque, o dia começa cedo: às quatro da manhã. E era precisamente a essa hora que todos os dias Ko Aye era obrigada a levantar-se. Sentia-se esgotada, sem forças, conta à BBC. “Estava cansada, sentia-me doente, não podia trabalhar mais” recorda. No entanto isso não podia servir de desculpa para não trabalhar. Um dia, o supervisor da fábrica foi buscá-la ao quarto. À saída foi agredida pelo guarda que vigiava os trabalhadores. “Deu-me um soco na cara. Chorei e trabalhei o dia todo doente a pensar no que fazer”.

De acordo com Kevin Bales, especialista em Escravidão Contemporânea na Universidade de Nottingham na Inglaterra, a Tailândia é uma potência erguida com base no trabalho escravo. “É provável que, sem a escravidão, a indústria pesqueira tailandesa não consiga competir com os barcos bengaleses, vietnamitas, chineses e russos que utilizam a escravidão” revelou Bales à BBC.

O lado negro do comércio do camarão na Tailândia: Uma história real de escravidão© PORNCHAI KITTIWONGSAKUL/ Getty Images O lado negro do comércio do camarão na Tailândia: Uma história real de escravidão

 

CAMARAO2A rede de tráfico humano atua em países como Myanmar onde os trabalhadores imigrantes são uma presa fácil tendo em conta a pobreza e a diferença de línguas.

Na fábrica, Ko Aye estava proibída de sair e nem sequer arriscava. Nunca teve os seus documentos consigo e passava fome. “Não conhecia ninguém do lado de fora, tinha dívidas a pagar. Comia pouco, mas mesmo assim não era suficiente, gastava tudo em comida” afirma.

De acordo com a The Global Slavery Index, estima-se que, na Tailândia, cerca de 425 mil pessoas vivem numa situação de escravidão moderna.

Em 2015 foi descoberta uma rede de traficantes após centenas de imigrantes terem sido encontrados enjaulados na selva tailandesa. A maioria dos imigrantes pertencia à minoria Rohingya de Myanmar. O objetivo era vendê-los a donos de barcos pesqueiros. No mesmo local onde foi desmantelada a rede de traficantes, foram descobertos cerca de 500 corpos em valas comuns.

Segundo a junta militar que governa o país, foi ordenado um aumento no controlo dos barcos pesqueiros e na vigilância das fronteiras. No entanto, na opinião de Lisa Rende Taylor, diretora executiva do Issara Institute, uma ONG independente de referência no país no combate à escravidão, nenhuma das mudanças anunciadas trouxe um impacto significativo. “Ainda vemos tráfico dentro do recrutamento da mão-de-obra, escravidão por dívidas, trabalhadores sem documentos forçados a fazer turnos duplos por pouco ou nenhum salário” revela Taylor à BBC.

A Tailândia é um país onde o tráfico humano é uma realidade bem presente. Segundo a Agência das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC) o tráfico humano movimenta, por ano, cerca de 27 milhares de milhão de euros. Em 2015 a União Europeia ameaçou proibir as importações de produtos pesqueiros do país se este não tomasse medidas urgentes para combater a pesca ilegal, especialmente a mão-de-obra.

Segundo afirmou Matthew Smith à BBC Brasil, diretor executivo da ONG Fortify Rights (uma organização que atua contra a escravidão no sudeste asiático) a economia do país poderá ser afetada se o país não limpar a sua reputação. “A Tailândia está a ver a sua reputação ser afetada. Essa é parte da razão pelo qual o governo está a pensar no problema. Eles sabem que se não limparem a reputação do setor poderão entrar em colapso e começar a perder contratos e investimentos. Os distribuidores vão começar a pensar duas vezes antes de importarem produtos da Tailândia” afirmou Smith.

Ko Aye foi resgatada em 2015, depois de um imigrante ter fugido do armazém onde trabalhava e ter pedido ajuda a uma ONG local. As autoridades foram chamadas e os imigrantes foram libertados. “Disseram-nos que podíamos sair, que não precisávamos de continuar ali, a trabalhar. Fui chamar Ko Aye mas ela recusava-se a sair, tinha medo” afirmou Su Su, amiga de Ko Aye. Conheceram-se na fábrica. Ambas foram incluídas num programa de resgate e de transferência de dinheiro para vítimas de tráfico pelo Issara Institute. Durante três meses receberam pouco mais de um salário mínimo. Esperam agora pelo julgamento (que será realizado dentro de dois meses) do processo onde reivindicam o pagamento de dois anos de salário atrasados. “Tenho a esperança de que vamos poder recuperar o nosso salário e voltar para casa, abrir um negócio e voltar a viver” afirma Ko Aye que continua a limpar camarões noutro armazém em Samut Sakhon. Trabalha entre 10 a 12 horas por dia e recebe cerca de 190 euros por mês. O salário permite que se alimente e pague o aluguer do quarto. Tem ainda uma folga semanal. Trabalha com a amiga e juntas tentam economizar cerca de 48 euros por mês. “Quase sempre conseguimos. Queremos recomeçar a nossa vida e esquecer tudo” afirma Ko Aye.

Ko Aye e Su Su são nomes fictícios dados às vítimas para proteger as suas identidades.

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